Ser autodidacta

Uma das coisas que mais me inquieta no jornalismo é a necessidade exacerbada de ser melhor que os outros, um facto que se manifesta desde as “camadas mais jovens” até aos “velhos anciãos”.

A partir do momento em que traçamos um rumo somos aconselhados a ser competitivos no que fazemos. “Uma competição saudável”, dizia-me um professor de História do secundário. Temos de ser melhores que os outros para podermos subir na “hierarquia” instaurada por aqueles que foram instruídos, tal como nós, a respeitar toda esta combinação de elementos.

Questiono-me algumas vezes sobre o que é ser melhor que outrem. Ter uma média mais alta? Ser mais popular no contexto em que se esta inserido? Pertencer ao círculo de amigos mais apropriado? Ser mais interventivo? Ter mais currículo?

Sinceramente não sei. Acredito que, tal como eu, as próprias entidades empregadoras se devem sentir confusas na hora de eleger o melhor candidato.

Um licenciado em Comunicação Social tem dificuldades acrescidas na hora de se impor no mercado de trabalho. Seja pela inflação de candidatos em relação às poucas vagas que existem, ou pela falta de preparação que traz da faculdade em termos práticos, ou até mesmo pela falta de vocação que descobre no final.

Como eu acredito que o jornalismo, a publicidade, o audiovisual ou as relações publicas se baseiam na vocação, é minha opinião que não é tão necessário como isso provar que se é melhor que o nosso parceiro de trabalho, que o nosso editor ou que o nosso director. Na hora do “lavar dos cestos”, o que conta é aquilo que fazemos com o que sabemos. É aquilo que aprendemos com a nossa experiência pessoal. Utilizar os cinco sentidos para evoluir como pessoa e paralelamente como profissional.

Acredito que um jornalista deve ser sempre autodidacta. Estamos sempre a aprender ao mesmo tempo que podemos estar a ensinar. É a constante aprendizagem que define um bom profissional. Pelo menos, apraz-me pensar que assim é.

8 Respostas para “Ser autodidacta”

  1. cláudia lomba Diz:

    palavras, leva-as o vento. desculpa.

  2. Marlene Diz:

    Não discordo totalmente, mas por outro lado, sinto-me tentada a dizer que o reconhecimento dos outros é, talvez, um bom indicador do nosso desempenho e evolução enquanto pessoas e enquanto profissionais. Ter boa média, conseguir uma promoção no emprego, e outras conquistas dessa natureza podem ser o reflexo da nossa capacidade de usar os cinco sentidos. Admito, contudo, que esta avalição não é, de todo, taxativa. E concordo contigo quando contestas a inflamada competitividade que se sente entre os pares. Chamo-lhe uma competitividade “bestial” (e não uso o termo no sentido de fabulosa). Esta compettividade não se traduz num esforço de aperfeiçoamento pessoal, tomando por modelo aqueles que se distinguem positivamente; pelo contrário, espera-se que os outros estejam aquém das expectativas, para que, sem esforço, se possa obter distinção. É uma mau princípio, sem dúvida.

  3. Hugo Torres Diz:

    tenho que concordar com a Cláudia…

  4. Rui Rocha Diz:

    Subscrevo, “cl’ugo”.

  5. pedroromano Diz:

    Somos aconselhados a ser competitivos? Para que é que precisamos de ‘aconselhamento’? Os maiores interessados somos nós próprios.

  6. phillipevieira Diz:

    a competitividade faz parte da nossa sociedade e, mais, do nosso ser. desde sempre fomos seres competitivos e procuramos sempre sobressair sobre os demais. se assim não fosse, porquê premiar a excelência? porquê conferir bolsas de mérito?enfim, porquê valorizar o óptimo por oposição ao medíocre? exactamente pela noção de que o óptimo é bom e o medícore é mau. quem determina o que é bom ou mau? a competitividade e a capacidade de superar os outros.

    os contextos da competitividade são vários. a sala de aulas é um óptimo exemplo. o desporto. a política. a economia. toda a nossa sociedade é construída sob as premissas da competitividade exactamente porque nós somos competitivos por natureza.

    por isso, quando sugeres que um bom jornalista basta-se a si mesmo creio que estás enganado. um jornalista precisa da concorrência para evidenciar aquilo que de melhor ele tem. para mostrar o que pode oferecer. para indicar aquilo que pode fazer para além da média, do ordinário. e, só num ambiente competitivo tal pode ser levado a cabo.

    e para se ser bom em qualquer área é preciso muito mais do que vocação. é preciso treino, acompanhamento. é preciso competitividade para crescer e melhorar. aquilo que o jornalista vai aprendendo é a desenvolver o seu estilo, a sua marca, aquilo que o diferencia. o ser-se jornalista não se aprende só, porque ser jornalista é muito mais do que saber fazer um lead. é compreender porque é importante o trabalho que faz e perceber porque razão é importante. e isto, não aprendes só. aprendes com os outros. aprendes com os que te ensinam. e aprendes com aqueles contra os quais competes por algum objectivo. competitividade é igual a crescimento. inegável, creio eu.

  7. Filipe Alves Diz:

    Julgo que o jornalismo é como qualquer outra profissão. Para ter (algum) sucesso, é necessária vocação, talento, empenho, coragem, muita preserverança e alguma sorte (que em parte também se constrói). Quanto à aprendizagem contínua, aprendemos sempre. Há que pesquisar os mais variados assuntos por sua livre iniciativa, ler livros e jornais e procurar acompanhar a actualidade, mesmo naquelas áreas para as quais não nos sentimos muito inclinados. E, claro, aprender com quem tem mais anos de experiência. Mas isto, volto a dizer, passa-se em todas as outras profissões.

  8. Will BENTO TONET Diz:

    Infelizmente e fundamentalmente aqui em África (falo de Angola, sou angolano e Licenciado em Ciências da Comunicação), tenta-se muitas vezes colocar o pseudo autodidatismo, sobre a ciência e o profissionalismo.

    Sempre me manifestei muito desagradado com o facto de profissionais de outras áreas apelidados e autoproclamados de autodidactas em jornalismo, actuarem nesta área. Por isso, é que temos os problemas com os quais vivemos.

    Precisamos respeitar as áreas profissionais, sermos cada vez mais competitivos, buscar e aprofundar cada vez mais os nossos conhecimentos.

    Os melhores têm de se distinguir do amontoado, e a melhor forma de o ser é trabalhar muito o conhecimento que temos, possuir uma mente aberta capaz de aprender com tudo e todos e ensinar também. Precisamos acima de tudo, saber ser gente e profissionais competentes.

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