Naturalmente, o tema dominante da entrevista de José Sócrates à RTP e RDP foi a Universidade Independente (UnI). Moderada por José Alberto Carvalho (director-adjunto de informação da RTP) e Maria Flor Pedroso (especialista em política nacional da Antena 1) esta conversa a três mostrou um Sócrates confuso, desorientado e pouco à vontade.
Ambos os jornalistas assumiram uma postura forte e determinada. Colocaram as questões que se exigiam, perguntaram qual a relação de Sócrates com o antigo reitor da UNI e com um outro docente, que o aprovou em quatro das cinco cadeiras, a outra aprovação foi garantida pelo próprio reitor, e que passou pelos governos, primeiro, de Guterres e, depois, do próprio Sócrates.
Nunca o primeiro-ministro encarou os jornalistas de frente. Procurou sempre falar para o país, mas quem terá saído convencido? José Alberto Carvalho procurou perceber como a Independente aceitou um aluno sem um certificado de avaliações – terá confiado na sua palavra? – do anterior estabelecimento de ensino frequentado. Sócrates não conseguiu responder, dando ideias vagas de que nada teria a ver com a situação, ao mesmo momento em que confirmou que o seu diploma foi emitido a um domingo, aceitando que todas essas questões levantem “dúvidas legítimas” junto da população.
Mais discreta do que o pivot da RTP, Maria Flor Pedroso foi também insistente, perguntando a Sócrates se tem o hábito, ou não, de telefonar a jornalistas, procurando passar informações ou corrigir notícias. Nunca classificando esses telefonemas como actos de “pressão”, o primeiro-ministro confirmou que, por vezes, o seu gabinete entra em contacto com os jornalistas para “esclarecer dúvidas” ou para responder a investidas dos próprios jornalistas.
Os dois jornalistas estiveram em bom plano, evitando cair na brejeirice e no mau gosto. O profissionalismo foi evidente, descartando algumas projecções de “passividade” apontadas aos profissionais da rádio e televisão do estado.
Em nenhum momento o primeiro-ministro conseguiu responder claramente às questões dos jornalistas. Sócrates não explicou devidamente a escolha pela UNI (razões logísticas? De proximidade?) nem conseguiu elucidar José Alberto Carvalho – principalmente – acerca de algumas inconsistências registadas no seu percurso, nomeadamente em relação a equivalências.
O primeiro-ministro apresentou-se nervoso e agitado procurando saltar sobre as questões dos jornalistas, algumas desconfortáveis, não esclarecendo as dúvidas em torno das biografias parlamentares mostrando algum desnorte ao levantando outras questões que não haviam sido escalpelizadas pelo grande público, como a sua garantia de pagamento das propinas.
Apenas após a passagem da entrevista a perguntas relacionadas com a governação é que Sócrates se soltou da amarra “independente” e respondeu, frontalmente, às questões relacionadas com a OPA, a criação dos 150 000 postos de trabalho e o défice. Apesar de mais à vontade, o primeiro-ministro não deu grandes novidades no plano económico, apenas procurando realçar o aspecto positivo das exportações no crescimento económico.
Quando a entrevista tocou os pontos da convergência com a UE, a redução dos funcionários públicos e a OTA, Sócrates voltou a balbuciar, principalmente em relação à localização do novo aeroporto dando a ideia de optar por essa questão mais por teimosia do que por convicção de ser o melhor para o país.
Sócrates procurou defender-se sem nunca ser atacado. Se o seu objectivo era acabar com as dúvidas em torno da sua licenciatura, então foi totalmente falhado. As questões colocadas foram aquelas que estavam na ordem do dia. Nunca foi posto em causa o trabalho do “aluno” Sócrates, antes tentou-se perceber algumas das incongruências que se têm levantado em torno da UNI e da forma como os graus académicos eram obtidos na universidade.
Algumas questões ficaram por responder, por incapacidade do entrevistado em lhes dar uma resposta segura: é possível pedir uma transferência para outra sem apresentar um plano de cadeiras completas – a boa-fé do estudante será suficiente? O que levou Sócrates a corrigir, manualmente, a sua biografia parlamentar em 1993? Sócrates beneficiou de tratamento especial na UnI? Se sim, era essa uma realidade costumeira na universidade? Qual o verdadeiro relacionamento de Sócrates com a imprensa e qual a extensão da sua influência sobre os jornalistas? Questões que ficaram por responder. E continua a ser legítimo discutir a natureza da licenciatura de Sócrates.
Abril 12, 2007 ás 8:24 am |
[...] Para ler a versão integral deste post, consultar aqui. [...]
Abril 12, 2007 ás 1:48 pm |
a mim. e irrita-me essa questão «da sua influência sobre os jornalistas». parece-me diminuidor para estes últimos e mostra de alguma ingenuidade – ou esquecimento – face à verdadeira e declarada fonte de pressões – o poder económico. e agora apresentem-me grelhas longuíssimas e infinitamente promiscuas entre este e o poder político, bla bla bla…
Abril 12, 2007 ás 2:05 pm |
Eu lá consegui assistir à entrevista através do portal da RTP, com bastantes falhas, mas deu para acompanhar. Estando fora do país, e mesmo não tendo acesso à televisão portuguesa, só de acompanhar as noticias nos jornais (e principalmente de andar às voltas na blogosfera) fico espantada como é que este caso ganhou tamanha dimensão.
Quanto à entrevista, não fiquei totalmente esclarecida. Acho que aqui a questão nem é “Sócrates convenceu quem?”, mas sim “a entrevista esclareceu quem?”, porque acho que o primeiro-ministro deve ter convencido alguém. Concordo em grande parte com o que disseste, excluindo o profissionalismo “evidente” dos dois jornalistas. Houve situações bastante constrangedoras na entrevista, em que foram feitas perguntas para as quais ninguém tinha uma certeza, como o caso das equivalências ou das notas terem saído em Agosto. Será que os jornalistas, com tantos dias de investigações, não conseguiam averiguar se isso é ou não um procedimento normal na UnI, ou mesmo noutras universidades? Têm que se saber as politicas do estabelecimento de ensino para se saber se um aluno cumpre ou não as regras que lhe são impostas. Os jornalistas limitaram-se a repetir as perguntas que têm sido feitas durante estas semanas, e ele deu as respostas que já tinha preparado.
Sobre as influências que Sócrates exerce ou não sobre os jornalistas, deixo ficar um extracto da opinião de Martim Avillez Figueiredo: “
A ideia que passa neste país é que quem recebe telefonemas é vítima de pressão. Não é: as vítimas são apenas as que não resistem à voz que lhes fala. As outras, as que resistem, recebem telefonemas pelas posições que ocupam. Muitos telefonemas são legítimos: pretendem esclarecer, contextualizar, explicar. Outros tantos são perversos: desejam manipular, contrariar, influenciar. E os jornalistas, que fique claro, recebem (receberam) ambos. Deste Governo e de outros”.
Quem quiser ler o texto na íntegra, pode fazê-lo através do link: http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/opinion/editorial/pt/desarrollo/920240.html
(peço desculpa pelo tamanho do comentário. já parece um dos teus posts, phillipe
)
Abril 12, 2007 ás 9:22 pm |
Não digo que o sr primeiro-ministro me tenha convencido, mas não concordo com a tua avaliação da sua performance. A sua posição não era fácil, esteja ele “inocente” ou não. E, apesar disso, considero que passou uma imagem de relativa segurança e à-vontade. Acredito não ser a única a ter esta opinião, a avaliar pelos resultados das sondagens hoje apresentados.
Abril 12, 2007 ás 10:44 pm |
a escolha da uni foi explicada.
o senhor sócrates justificou com os factores proximidade e notoriedade (adjectivo que agora de perde com este caos).
achei que o sócrates revelou um certo à-vontade nas suas afirmações, mas demonstrou alguma exaltação que se entende quando se pode estar inocente e se recebe pressões de toda a parte.
tal como a marlene refere, penso que os jornalistas poderiam ter feito mais trabalho de casa. mas a flor pedroso é uma grande jornalista de política. na antena 1, não há melhor.
no fim disto tudo, resta dizer que agora as questões deveriam ser colocadas à uni.
do tipo: “um diploma emitido ao domingo? como?”.
Abril 12, 2007 ás 10:58 pm |
e notoriedade não é adjectivo, é substantivo.
mea culpa. mea culpa.
Abril 13, 2007 ás 2:44 am |
[...] Ler comentário à entrevista aqui. [...]
Abril 13, 2007 ás 4:19 am |
Ele devia era de ter sido entrevistado na SIC ou na TVI. Se calhar até recebeu as perguntas com uma semana de antecedência
Abril 13, 2007 ás 12:16 pm |
Não estando completamente à vontade no sentido de saber se há direito de contraditório, ou não, parece-me que certos comentários aqui colocados são merecedores de uma apreciação da minha parte.
cláudia,
a meu ver os únicos momentos constrangedores foram quando o próprio Sócrates não conseguia dar resposta às questões. acho perfeitamente legítimo que lhe tenham sido feitas perguntas em relação às equivalências e à sua relação com os professores, pois sabe-se hoje, e mais a cada dia que passa, que essa não era uma “normal” relação entre aluno e docente.
marlene,
em relação à avaliação de Sócrates, acredito que a tentativa de evitar questões, de levar a entrevista por caminhos menos importantes foi uma clara mostra de insegurança. claro que ele não tinha uma posição fácil mas… quem não deve, não teme. em relação às sondagens, não sei a qual te referes, mas a da TVI/RCP teve por base eleitorado socialista. parece-me um resultado algo enviesado. mas aceito que posso fazer parte da minoria que não ficou esclarecida nem convencida e que não pode ignorar os “buracos” nas explicações do nosso primeiro.
luísa,
apesar de também partilhar da ideia de que a UnI deve ser muito bem investigada, não acho que Sócrates tenha explicado convincentemente as razões pela escolha Independente. por motivos laborais? a anterior faculdade já lhe deixava estudar em horário pós-laboral. prestígio?o curso de civil tinha dois anos na UnI aquando da isncrição de Sócrates. tempo suficiente para ganhar “prestígio”? já agora, a que tipos de pressões esteve sujeito Sócrates? ele próprio reconheceu que a forma como alcançou o diploma pode levantar dúvidas legítimas.
Junho 29, 2007 ás 12:55 am |
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